- Doutor, eu tô com as oiça curta. Faz um tempo que tô ficando mouco…
Rapidamente, o homenzinho que mora na minha cabeça começou a revirar seus velhos arquivos (pois é, minha cabeça ainda não é informatizada) a procura de alguma referência para oiça e mouco.
- E parece que tá chuchando lá dentro. Dá aquela chuchada e depois para. (Mais tabalho pro meu homenzinho. Coitado, já tem tanto trabalho como arquivista, organizador, revisor, entre tantas outras funções, e agora ter traduzir a própria língua… Daqui a pouco ele vai me deixar na mão e sair de férias).
Meu homenzinho até que trabalhou rápido, pois conforme a consulta continuava e o paciente ia me contando o que mais sentia, fui conseguindo entender o que ele dizia.
Quando eu mudei para o nordeste, sem nunca ter estado aqui antes, sequer pra conhecer, sabia que o choque cultural seria grande, como realmente foi. A diferença de costumes, comidas, termos regionalistas, os nomes das pessoas… Ah, os nomes!!!
Nunca havia visto um povo tão criativo prar dar nomes aos filhos do que o nordestino. A maioria tem nomes comuns, como João, Maria, Antônio, Joana, etc, mas tem os Miqueljequisson, Ualdisnei, Maiquetaisson, entre outros. Sem contar os nomes compostos. Como esse povo gosta de nomes compostos, como Joana Angélica, Maria Augusta, Carlos Augusto, Antônio Almeida. E o pior é que as pessoas só se tratam pelos nomes compostos. Por exemplo: Se você conhece a Joana Angélica, e só tiver ela com esses nomes onde ela trabalha, não adianta você pedir pra falar com a Joana ou com a Angélica, que ninguém vai saber quem é. Você tem pedir pra chamar a Joana Angélica, que aí todo mundo sabe quem é. Realmente, uma questão cultural.
Quando conversamos com um nordestino, principalmente os que moram em cidades pequenas, no interior do estado, parece que estamos em outro país, tal a variedade de termos regionalistas exclusivos daqui. Chega a um ponto que as vezes não conseguimos entender o que eles querem nos dizer.
A situação apresentada no início do artigo aconteceu realmente, só que o paciente era uma mulher, de 92 anos, moradora de um povoado pertencente à cidade de Canindé do São Francisco, interior do Sergipe, e aconteceu com minha esposa, que é fonoaudióloga, assim que chegamos ao Sergipe.
Em tempo: depois que ela me contou o acontecido, eu resolvi descobrir o que significavam esses termos, aí descobri que oiça é o mesmo que ouvido; mouco é o mesmo que falta de audição, dificuldades para ouvir; e chuchar é a sensação que tem algo espetando, como se tivesse uma agulha no local (serve para qualquer parte do corpo)
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