Prepare-se Para Morrer

A Skull balanced against a stone block; the letters LB intertwined with the jaw

Prepare-se para morrer.

Você está preparado para morrer?

Essa pergunta pega muita gente de surpresa. Muitas pessoas não gostam, se sentem ofendidas, acham que estamos querendo que elas morram ou estamos desejando algum tipo de tragédia.

Na verdade, as pessoas não estão preparadas para morrer. Quase ninguém pensa, ou já pensou, nisso, pois no inconsciente das pessoas, elas acham que vão viver pra sempre, o que demonstra o quão grande é o apego das pessoas a si mesmos.

A consequência disso podemos ver quando temos a oportunidade de conversar com um moribundo. A pessoa em vias de morrer, quando ela percebe que está num caminho sem volta, normalmente reclamam de não ter podido aproveitar melhor a vida, das coisas que queriam ter feito, mas por um motivo ou outro, acabaram não fazendo, das pessoas com quem gostariam de não estar brigados e não pediram perdão, e por aí vai a série toda de reclamações, todas girando em torno do que queriam ter feito e não puderam. Até hoje, não encontrei ninguém que dissesse que estava pronto pra morrer, que fez tudo o queria ter feito na vida.

Um dos motivos que eu percebo para que as pessoas não se preparam para morrer acontece justamente porque todos se focam em viver o futuro e não o presente. Todo mundo vive planejando o futuro, mas quase todo mundo se esquece de que está vivendo o aqui e o agora. Posso planejar viajar no próximo Carnaval, mas daqui a pouco eu posso sair e morrer atropelado, enquanto sonhava com a viagem.

Nada contra quem planeja o futuro, pensa na própria velhice ou no bem-estar dos filhos, já que eu também faço isso, mas o que quero chamar a atenção aqui é que, além de planejar o futuro, temos também que pensar em viver o hoje, o agora, já que é justamente no agora que estamos e o futuro pode nunca vir a se concretizar.

Vegetarianismo e Budismo: Tudo a Ver?

MUNE / Museo del Noreste.

Vegetarianismo e Budismo: Tudo a Ver?

Sou vegetariano e budista, ou melhor, estudo o budismo a aproximadamente um ano e meio e recentemente me tornei ovolactovegetariano.

É engraçado quando eu comento com outras pessoas a minha opção pelo vegetarianismo, uma das associações que é feita é que parei de comer carne por causa do budismo, o que é e não é verdade.

Um dos ensinamentos do budismo é não provocar sofrimento nos seres sencientes. Senciente, segundo o dicionário, é toda “criatura viva que tem sensações, ou é capaz de ter sensações; que é sensível”, ou seja, homens e animais (incluindo aqui os peixes e os insetos), pois tem condições de demonstrar esta capacidade de sentir.

É claro que em lugar nenhum (pelo menos até onde eu tenha lido), está escrito que o Buda disse que não era para comermos carne, mas baseado no ensinamento que citei acima, a não ser que você passe a comer a carne de animais que morreram por acidente ou naturalmente, qualquer outra forma de se obter carne envolve provocar sofrimento e morte.

Só assista se tiver estômago forte. Já trabalhei em abatedouros, e é bem como mostra este vídeo.

 

Buda foi, em grande parte de sua vida, um monge mendicante, ou seja, ele comia o que ganhava das pessoas. Ele só não comia a carne que lhe era oferecida se acaso o animal houvesse sido abatido exclusivamente para servir de alimento a ele. Eu não sou monge e, felizmente, não estou numa situação de mendicância, portanto posso me dar ao luxo de escolher o que vai e o que não vai para o meu prato, e como não quero mais contribuir com o sofrimento dos animais, decidi parar de comer carne.

Mas todos os budistas pensam como eu? Acabam se tornando vegetarianos?

A resposta mais inteligente e sincera para isso é: não Sei.

Provavelmente, alguns pensam igual a mim, outros simplesmente ignoram este fato e continuam comendo carne normalmente, sem deixar que este fato interfira em suas vidas, outros são vegetarianos em casa e, quando comem fora, se lhes é oferecida carne, eles comem.

Não me tornei vegetariano por causa do budismo, já que o budismo não obriga ninguém a nada, mas graças ao budismo eu me tornei mais consciente a respeito de ações e atitudes que antes eu executava de maneira automática, sem me preocupar com as consequências para os outros seres.

Mesmo em inglês tá fácil entender a mensagem.

90 Dias Sem Carne: Balanço Geral

Zucchini sushi

No dia 16 de novembro completei 90 dias como ovolactovegetariano.

Parar de comer carne (de qualquer tipo e origem) até foi fácil. O difícil é encontrar opções para comer fora. Devido à rotina de trabalho de minha esposa, acabamos comendo fora de casa pelo menos três vezes durante a semana, e encontrar opções vegetarianas atrativas acabou se tornando um desafio, que levou a um abuso de carboidratos, e consequentemente a um aumento na minha taxa de triglicérides.

Cozinhar em casa até que não foi difícil, já que a carne não era o prato principal da minha mesa, apenas um complemento. Algumas pesquisas na internet também ajudaram bastante.

Um dia eu experimentei pedir uma “quentinha” de um restaurante vegetariano daqui. A comida é boa, mas achei ela pequena. Ficou a opção para um dia que estiver com pouca fome, já que também não achei muito barata, e no final a relação entre custo e quantidade fez com que eu a achasse cara.

Recentemente resolvi experimentar a proteína texturizada de soja (PTS), conhecida também por “carne de soja”. Achei uma excelente opção para se fazer pratos feitos essencialmente com carne, como hambúrgueres e almondegas, sem contar que é barata e rende muito. Um pacote de 500 gr rende o equivalente a 1,5kg de carne.

Segundo minha esposa, que é quem controla o gasto de mercado aqui de casa, a diferença de valores, para baixo, foi perceptível, já que reduziu bastante o consumo de carne.

Nesses 90 dias emagreci 9 quilos, numa proporção de 3 quilos por mês, sem esforço nenhum.

Quando eu comparei os resultados dos meus exames de sangue de três meses atrás e os que fiz semana passada. Percebi uma redução nas taxas de glicose e de colesterol, mas os triglicérides e o VLDL (um tipo de gordura) aumentaram, acredito que resultado do aumento do meu consumo de carboidratos e queijos.

Ultimamente, percebi que estou entrando na fase de repulsa da carne. Por exemplo, na segunda-feira antes do feriado de 15 de novembro, fomos jantar numa churrascaria aqui da cidade. Antes de eu parar de comer carne, seria o meu programa favorito, agora não tem mais tanta graça, mas como a churrascaria tem um ótimo buffet de saladas , queijos e massas, não teria problemas para eu me alimentar. Quando passou o espeto de linguiça assada, que era um dos meus pratos favoritos, minha esposa pegou uma. O cheiro da linguiça chegou a me embrulhar o estômago, coisa que até pouco tempo atrás eu teria rido da simples ideia de me repugnar com uma linguiça assada.

Até agora, não tive problemas para me alimentar, só tenho que me atentar mais para a escolha de pratos, para não exagerar nos carboidratos e nos queijos com muita gordura.

Acredito que não voltarei a comer carne, já que me acostumei com a ideia de ser ovolactovegetariano, e assim estou contribuindo para evitar o abate de outros seres vivos.

A Vez de Lara

A Vez de Lara

Desde que optamos pela adoção, um ponto que ficou desde o início acordado entre eu e a esposa seria que teríamos dois filhos. Duas meninas, para ser mais exato. Nunca tive muita paixão por ter meninos, apesar de quase ter adotado um quando morávamos no Paraná.

Depois que adotamos Ana Cecília, achamos que seria interessante aguardar um tempo até começarmos a ir atrás de outra menina, pelo menos um ano, para ver como seria a nossa adaptação com um bebê dentro de casa, mas o Destino tinha planos diferentes para nós.

Em março deste ano (2011), quando Ana Cecília já tinha 9 meses de idade e 5 meses morando com a gente, eu estava trabalhando embarcado, quando a minha esposa me ligou, num misto de ansiedade e euforia, dizendo que havia surgido outra menina para adoção, no interior da Bahia, e que se eu quisesse, assim que eu desembarcasse, poderíamos ir buscá-la, bastava eu concordar.

Depois da surpresa da notícia, já que para conseguir Ana Cecília demoramos quase três anos, questionei como ela havia ficado sabendo dessa criança e como iriamos pegá-la assim que eu desembarcasse, pois eu sei que os trâmites legais normalmente são demorados.

Resumidamente, uma das assistentes sociais que estava tomando conta do caso de Lara, nessa cidadezinha no interior da Bahia, é mãe da promotora que cobriu as férias do promotor responsável pela adoção de Ana Cecília. Veio a calhar que este promotor estava de férias quando a assistente social ligou para a filha, informando que havia uma criança em situação de risco iminente de morte, e perguntou se ela (a filha promotora) não sabia de ninguém que estivesse apto para adotar esta criança. A promotora, que havia ficado no sabendo no fórum da nossa luta para conseguir Ana Cecília, e que estávamos dispostos a adotar outra criança, resolveu entrar em contato conosco e perguntar, mas era para ter uma resposta urgente, já que nesta cidadezinha não havia abrigo e a criança estava ainda com a mãe biológica, que a estava deixando morrer de fome.

Depois que eu pedi baixa do Corpo de Bombeiros, acabei ficando um pessoa muito emotiva. Quando minha esposa acabou de contar a situação eu já estava com os olhos cheios d’água, e acabei concordando na hora, sem pensar se a criança poderia ter algum tipo de problema de saúde ou deficiência.

Apesar da urgência, decorreu-se quase um mês para que pudéssemos ir ao interior da Bahia para buscar a criança, que agora sabíamos que se chamava Lara. Como nos prontificamos a adotá-la, a assistente social responsável passou a ir com mais frequência acompanhar a mãe biológica de Lara, no intuito de que, pelo menos comida ela desse para a menina.

Quando conseguimos ir buscar Lara, era a segunda-feira da semana do feriado de 21 de abril, que iria cair numa quinta-feira, e eu tinha passagem comprada para Natal-RN, para embarcar na terça-feira pela manhã. Veja a loucura! Ao invés de trazer a menina, levar a um pediatra, fazer uma avaliação completa, não, levei pra passar uma semana em Natal. Resultado dessa brincadeira foi que na quarta-feira, um dia depois que chegamos em Natal, a primeira coisa que fizemos pela manhã foi levar Lara num pediatra em Natal, já que ela havia chorado uma boa parte do dia e da noite anterior. O que Lara tinha, com 4 meses de idade, era cólica. Cólica!!!

Como pegamos Ana Cecília com 4 meses também, só que ela estava sendo bem cuidada, já havia passado a fase da cólica e nós não tivemos a experiência de ter um bebê com cólica em casa. Bastou dar o remédio que a pediatra receitou e problema resolvido.

Na quinta-feira eu acordei invocado. Ao contrário de Ana Cecília, que nessa época quase não tinha cabelo, Lara tinha cabelo em grande quantidade, grande e bem enrolado, o que dava a impressão de uma pequena juba, e o que era pior, a mãe biológica não cuidava direito e o cabelo dela na nuca estava todo embaraçado, praticamente impossível de ser penteado. No primeiro salão que passamos na frente, dentro do shopping Midway, em Natal, entrei e perguntei se cortava cabelo de bebês. Quando a moça me disse que sim, nem perguntei o preço, já pedi logo pra cortar.

Quando voltamos pra Aracaju, além do primeiro corte de cabelo, Lara também ganhou um guarda-roupas novo, já que as menores roupas que haviam em casa pareciam roupas de gigante para ela.

Uma semana depois que pegamos Lara, quando eu a levei ao pediatra, constatei que ela havia engordado 1,5 kg. No dia que a pegamos ela pesava meros 3,2 kg, peso menor do que muito recém-nascido, dava par ver todas as costelas e ela estava toda manchada de vermelho, que a princípio pensei ser alguma doença, mas depois vi que eram picadas de mosquitos. Depois da consulta, o pediatra disse que ela não tinha problema de saúde nenhum, era uma criança perfeitamente normal, a única coisa que estava faltando era comida, já que ela estava bastante desnutrida.

Hoje, nove meses depois, enquanto estou preparando as coisas para o aniversário de 1 ano de Lara, e a vejo ensaiando os primeiros passos e dançando quando ouve música, não interessa o tipo, fico pensando que, se não houvéssemos aceitado adotá-la, provavelmente estaria morta, já que a mãe biológica com certeza não teria cuidado e deixaria ela morrer de fome.

Em agosto voltamos para a audiência de guarda definitiva de Lara, e eu quase tive um ataque de ódio.

Chegamos no fórum, todo mundo contente, já que a guarda definitiva era certa de sair naquele dia. Eu vi que a mãe biológica passou por nós olhando a menina, que agora estava bem vestida, toda arrumada. Na hora eu não dei atenção ao fato.

Chegou a hora da audiência, o juiz chamou a minha esposa para fazer a arguição, depois me chamou e por fim chamou a mãe biológica. Até aí normal, já que ele havia explicado antes que o procedimento era esse mesmo.

Quando a mãe biológica saiu da sala do juiz, passou por nós e desceu. (Esqueci de dizer que o fórum é de dois andares, com um imenso espaço vazado na entrada e a sala do juiz fica no piso superior). O juiz nos chamou para a sala dele e, todo cheio de dedos, nos disse que a mãe biológica havia pedido a Lara de volta.

Na hora que ele disse isso, meu mundo simplesmente desabou. Senti que os olhos encheram d’água e eu simplesmente não conseguia pensar em absolutamente nada, não conseguia ordenar os pensamentos. Quando eu olhei pra minha esposa, ela já estava chorando, também sem conseguir falar coisa com coisa. O juiz, usando de uma boa dose de calma, nos explicou que ele iria pedir um estudo social nosso e da mãe biológica, depois ele iria avaliar e julgar o caso.

Nestes casos, pelo que eu saiba, o juiz normalmente julga pelo bem estar da criança, mas para você, leitor, que está lendo isso e não passou por situação semelhante, só tenho uma coisa pra te dizer: a dor é tão grande, que parece que estão esmagando o seu coração com a mão. Tanto é que, mesmo sabendo disso, e tendo sido confortado pelo juiz que Lara iria voltar pra casa conosco, quando eu consegui voltar a raciocinar um pouco, a única coisa que me passava pela cabeça era jogar aquela criatura que tinha parido a minha Lara por aquele vão livre, dentro do fórum mesmo. O sentimento de ódio era tão grande que para mim era impossível ter algum tipo de pensamento diferente. E se o juiz muda de ideia e manda deixa ela levar Lara com ela? Garanto para vocês, naquele momento só não cometi uma atrocidade porque ainda apareceu um lampejo de razão na minha consciência.

Quando as assistentes sociais, que estavam do lado de fora da sala do juiz, ficaram sabendo que a mãe biológica queria a criança de volta, já se mobilizaram para interferir em nosso favor, pois todas sabiam que ela literalmente havia abandonado Lara à própria sorte.

Uns quarenta minutos depois, ainda estávamos no fórum, quando uma das assistentes sociais retorna dizendo que a mãe biológica havia mudado de ideia e queira falar com o juiz de novo.

Resumindo a história: esta assistente social deu uma prensa na mãe biológica do lado de fora do fórum, para saber por que ela queria a criança de volta, já ela não tinha condições de se sustentar, quanto mais sustentar ela e uma criança. Depois de muito insistir, ela acabou falando que o que ela queria mesmo era dinheiro, já que agora a filha dela ia morar com gente rica, ela tinha que receber alguma coisa.

Não sei qual foi o teor da conversa que rolou depois disso, só sei que a mãe biológica voltou atrás, o que retirou uns quatro mundos da minhas costas e eu consegui voltar a raciocinar direito depois, mas como o juiz já havia pedido o estudo social, ainda estamos aguardando o relatório do estudo social chegar no fórum, pra daí podermos pegar o Termo de Guarda Definitiva.

A Vida de Milarepa

Tertön

A Vida de Milarepa

Milarepa (tib. Mi la ras pa, 1040-1123), o principal discípulo de Marpa (1012-1097), é renomado por toda a área cultural tibetana como uma das maiores figuras do buddhismo Vajrayana.

Milarepa nasceu em uma rica família de camponeses. Quando ele ainda era criança, seu pai morreu e as propriedades de sua família foram roubadas por seu tio. Milarepa, sua mãe e sua irmã ficaram sem nada.

Para se vingar, Milarepa começou a aprender magia negra. Depois de aprender muitos feitiços destrutivos, ele conjurou um temporal de granizo sobre a casa de seu tio, resultando na morte de dezenas de pessoas. Refletindo sobre as suas ações, Milarepa compreendeu que seus atos criaram um grande débito de karma negativo e então ele procurou um mestre que pudesse ajudá-lo a evitar as consequências de seu ato de vingança. O mestre Yungtön aconselhou-o a procurar Rongtön Lhaga, professor dos ensinamentos da Grande Perfeição (tib. Dzogchen / rDzogs chen) da escola Nyingma.

Milarepa não conseguiu progredir e Rongtön lhe disse, “Você deve ir ao eremitério Trowolung em Lhodrak, no sul, onde há um discípulo direto do mahasiddha indiano Naropa. Ele é o mais excelente dos mestres, o rei dos tradutores, conhecido como Marpa. Ele é um siddha da nova tradição e não tem rivais pelos três mundos. Já que, durante suas vidas passadas, você criou uma ligação kármica com Marpa, vá até ele!”

Só ouvir o nome de Marpa foi suficiente para despertar em Milarepa uma fé extraordinária, das profundezas de seu ser. Ele pensou, “Devo encontrar este mestre e me tornar seu discípulo, mesmo ao custo de minha vida.”

Naquele momento, Marpa e sua esposa, Damema, tiveram sonhos auspiciosos e sabiam da vinda de Milarepa. Marpa desceu o vale para esperar a chegada de seu futuro discípulo.

Milarepa primeiro encontrou o filho de Marpa, Darma Dode, que estava cuidando do rebanho. Continuando um pouco mais, ele viu Marpa, que estava arando o campo. Ele não sabia que aquele homem era o mestre, mas no momento em que o viu, Milarepa sentiu uma imensa alegria e felicidade; por um instante, todos os seus pensamentos comuns pararam. Milarepa esperava que Marpa fosse um grande santo e erudito, vestido como um yogi, usando muitos rosários, recitando mantras e meditando. Entretanto, encontrou-o trabalhando na fazendo, dirigindo os trabalhadores e arando sua terra.

Mais tarde, quando Darma Dode levou-o à presença de Marpa, Milarepa se prostrou aos pés dele e implorou para que lhe ensinasse o Dharma. Marpa respondeu que a iluminação de Milarepa dependeria unicamente de sua própria perseverança e determinou uma série de tarefas difíceis e desencorajadoras a seu novo discípulo, que foram designadas para purificar o seu karma negativo.
Marpa fez Milarepa construir uma série de torres, uma após a outra, e após a completa edificação de cada uma delas, ela ordenava a Milarepa que a derrubasse e colocasse todas as pedras de volta no lugar de onde vieram, para não estragar a paisagem. Cada vez que Marpa mandava Milarepa desmanchar uma torre, apresentava alguma desculpa absurda, como alegar que estava bêbado quando ordenara a construção ou afirmar que absolutamente nunca as encomendara. E Milarepa, cada vez mais ansioso pelos ensinamentos, colocava a casa abaixo e recomeçava.

Por fim, Marpa planejou uma torre de nove andares. Milarepa passou por um tremendo sofrimento para carregar as pedras e construir a casa, e quando terminou, dirigiu-se a Marpa, e mais uma vez rogou-lhe que o ensinasse. Porém, Marpa respondeu-lhe, “Você quer que eu lhe ensine, assim, sem mais nem menos, só porque construiu esta torre para mim? Pois receio que ainda tenha que me dar um presente como taxa de iniciação.”

A essa altura, Milarepa não possuía coisa alguma, pois gastou todo o seu tempo e trabalho construindo torres. Mas Damema, esposa de Marpa, teve pena dele e lhe disse: “Estas torres que você construiu são um gesto maravilhoso de devoção e fé. Meu marido certamente não se incomodará se eu lhe der alguns sacos de cevada e um rolo de tecido para a sua taxa de iniciação.” Então, Milarepa levou a cevada e o tecido para o círculo de iniciação em que Marpa estava ensinando e os ofereceu como gratificação, junto com os presentes dos outros estudantes. Marpa, porém, ao reconhecer o presente, enfureceu-se e gritou para Milarepa, “Essas coisas são minhas, seu hipócrita! Você está tentando me enganar!” E o chutou literalmente, a pontapés, do círculo de iniciação.

Nesse ponto, Milarepa perdeu toda e qualquer esperança de conseguir que Marpa lhe ensinasse. Desesperado, decidiu suicidar-se e já estava prestes a acabar com sua vida quando Marpa o procurou e declarou que ele, finalmente, estava pronto para receber os ensinamentos e iniciações.
Milarepa entrou em retiro, e após meditar em uma caverna por vários anos, tornou-se iluminado e alcançou todas as realizações comuns e sublimes do Mahamudra, o Grande Selo. Ele começou a escrever poemas sobre o Dharma e ensinar discípulos famosos, incluindo Rechungpa Dorje Dragpa (tib. Ras chung pa rDo rje Grags pa, 1088-1158) e Gampopa (tib. sGam po pa, 1079-1153). Vários sinais auspiciosos surgiram ao final de sua vida, quando Milarepa obteve a liberação completa. Após seu corpo ser cremado, dakinis apareceram e levaram suas relíquias para o céu.

FONTE: http://www.dharmanet.com.br/milarepa/milarepa.htm

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