A Vez de Lara
Desde que optamos pela adoção, um ponto que ficou desde o início acordado entre eu e a esposa seria que teríamos dois filhos. Duas meninas, para ser mais exato. Nunca tive muita paixão por ter meninos, apesar de quase ter adotado um quando morávamos no Paraná.
Depois que adotamos Ana Cecília, achamos que seria interessante aguardar um tempo até começarmos a ir atrás de outra menina, pelo menos um ano, para ver como seria a nossa adaptação com um bebê dentro de casa, mas o Destino tinha planos diferentes para nós.
Em março deste ano (2011), quando Ana Cecília já tinha 9 meses de idade e 5 meses morando com a gente, eu estava trabalhando embarcado, quando a minha esposa me ligou, num misto de ansiedade e euforia, dizendo que havia surgido outra menina para adoção, no interior da Bahia, e que se eu quisesse, assim que eu desembarcasse, poderíamos ir buscá-la, bastava eu concordar.
Depois da surpresa da notícia, já que para conseguir Ana Cecília demoramos quase três anos, questionei como ela havia ficado sabendo dessa criança e como iriamos pegá-la assim que eu desembarcasse, pois eu sei que os trâmites legais normalmente são demorados.
Resumidamente, uma das assistentes sociais que estava tomando conta do caso de Lara, nessa cidadezinha no interior da Bahia, é mãe da promotora que cobriu as férias do promotor responsável pela adoção de Ana Cecília. Veio a calhar que este promotor estava de férias quando a assistente social ligou para a filha, informando que havia uma criança em situação de risco iminente de morte, e perguntou se ela (a filha promotora) não sabia de ninguém que estivesse apto para adotar esta criança. A promotora, que havia ficado no sabendo no fórum da nossa luta para conseguir Ana Cecília, e que estávamos dispostos a adotar outra criança, resolveu entrar em contato conosco e perguntar, mas era para ter uma resposta urgente, já que nesta cidadezinha não havia abrigo e a criança estava ainda com a mãe biológica, que a estava deixando morrer de fome.
Depois que eu pedi baixa do Corpo de Bombeiros, acabei ficando um pessoa muito emotiva. Quando minha esposa acabou de contar a situação eu já estava com os olhos cheios d’água, e acabei concordando na hora, sem pensar se a criança poderia ter algum tipo de problema de saúde ou deficiência.
Apesar da urgência, decorreu-se quase um mês para que pudéssemos ir ao interior da Bahia para buscar a criança, que agora sabíamos que se chamava Lara. Como nos prontificamos a adotá-la, a assistente social responsável passou a ir com mais frequência acompanhar a mãe biológica de Lara, no intuito de que, pelo menos comida ela desse para a menina.
Quando conseguimos ir buscar Lara, era a segunda-feira da semana do feriado de 21 de abril, que iria cair numa quinta-feira, e eu tinha passagem comprada para Natal-RN, para embarcar na terça-feira pela manhã. Veja a loucura! Ao invés de trazer a menina, levar a um pediatra, fazer uma avaliação completa, não, levei pra passar uma semana em Natal. Resultado dessa brincadeira foi que na quarta-feira, um dia depois que chegamos em Natal, a primeira coisa que fizemos pela manhã foi levar Lara num pediatra em Natal, já que ela havia chorado uma boa parte do dia e da noite anterior. O que Lara tinha, com 4 meses de idade, era cólica. Cólica!!!
Como pegamos Ana Cecília com 4 meses também, só que ela estava sendo bem cuidada, já havia passado a fase da cólica e nós não tivemos a experiência de ter um bebê com cólica em casa. Bastou dar o remédio que a pediatra receitou e problema resolvido.
Na quinta-feira eu acordei invocado. Ao contrário de Ana Cecília, que nessa época quase não tinha cabelo, Lara tinha cabelo em grande quantidade, grande e bem enrolado, o que dava a impressão de uma pequena juba, e o que era pior, a mãe biológica não cuidava direito e o cabelo dela na nuca estava todo embaraçado, praticamente impossível de ser penteado. No primeiro salão que passamos na frente, dentro do shopping Midway, em Natal, entrei e perguntei se cortava cabelo de bebês. Quando a moça me disse que sim, nem perguntei o preço, já pedi logo pra cortar.
Quando voltamos pra Aracaju, além do primeiro corte de cabelo, Lara também ganhou um guarda-roupas novo, já que as menores roupas que haviam em casa pareciam roupas de gigante para ela.
Uma semana depois que pegamos Lara, quando eu a levei ao pediatra, constatei que ela havia engordado 1,5 kg. No dia que a pegamos ela pesava meros 3,2 kg, peso menor do que muito recém-nascido, dava par ver todas as costelas e ela estava toda manchada de vermelho, que a princípio pensei ser alguma doença, mas depois vi que eram picadas de mosquitos. Depois da consulta, o pediatra disse que ela não tinha problema de saúde nenhum, era uma criança perfeitamente normal, a única coisa que estava faltando era comida, já que ela estava bastante desnutrida.
Hoje, nove meses depois, enquanto estou preparando as coisas para o aniversário de 1 ano de Lara, e a vejo ensaiando os primeiros passos e dançando quando ouve música, não interessa o tipo, fico pensando que, se não houvéssemos aceitado adotá-la, provavelmente estaria morta, já que a mãe biológica com certeza não teria cuidado e deixaria ela morrer de fome.
Em agosto voltamos para a audiência de guarda definitiva de Lara, e eu quase tive um ataque de ódio.
Chegamos no fórum, todo mundo contente, já que a guarda definitiva era certa de sair naquele dia. Eu vi que a mãe biológica passou por nós olhando a menina, que agora estava bem vestida, toda arrumada. Na hora eu não dei atenção ao fato.
Chegou a hora da audiência, o juiz chamou a minha esposa para fazer a arguição, depois me chamou e por fim chamou a mãe biológica. Até aí normal, já que ele havia explicado antes que o procedimento era esse mesmo.
Quando a mãe biológica saiu da sala do juiz, passou por nós e desceu. (Esqueci de dizer que o fórum é de dois andares, com um imenso espaço vazado na entrada e a sala do juiz fica no piso superior). O juiz nos chamou para a sala dele e, todo cheio de dedos, nos disse que a mãe biológica havia pedido a Lara de volta.
Na hora que ele disse isso, meu mundo simplesmente desabou. Senti que os olhos encheram d’água e eu simplesmente não conseguia pensar em absolutamente nada, não conseguia ordenar os pensamentos. Quando eu olhei pra minha esposa, ela já estava chorando, também sem conseguir falar coisa com coisa. O juiz, usando de uma boa dose de calma, nos explicou que ele iria pedir um estudo social nosso e da mãe biológica, depois ele iria avaliar e julgar o caso.
Nestes casos, pelo que eu saiba, o juiz normalmente julga pelo bem estar da criança, mas para você, leitor, que está lendo isso e não passou por situação semelhante, só tenho uma coisa pra te dizer: a dor é tão grande, que parece que estão esmagando o seu coração com a mão. Tanto é que, mesmo sabendo disso, e tendo sido confortado pelo juiz que Lara iria voltar pra casa conosco, quando eu consegui voltar a raciocinar um pouco, a única coisa que me passava pela cabeça era jogar aquela criatura que tinha parido a minha Lara por aquele vão livre, dentro do fórum mesmo. O sentimento de ódio era tão grande que para mim era impossível ter algum tipo de pensamento diferente. E se o juiz muda de ideia e manda deixa ela levar Lara com ela? Garanto para vocês, naquele momento só não cometi uma atrocidade porque ainda apareceu um lampejo de razão na minha consciência.
Quando as assistentes sociais, que estavam do lado de fora da sala do juiz, ficaram sabendo que a mãe biológica queria a criança de volta, já se mobilizaram para interferir em nosso favor, pois todas sabiam que ela literalmente havia abandonado Lara à própria sorte.
Uns quarenta minutos depois, ainda estávamos no fórum, quando uma das assistentes sociais retorna dizendo que a mãe biológica havia mudado de ideia e queira falar com o juiz de novo.
Resumindo a história: esta assistente social deu uma prensa na mãe biológica do lado de fora do fórum, para saber por que ela queria a criança de volta, já ela não tinha condições de se sustentar, quanto mais sustentar ela e uma criança. Depois de muito insistir, ela acabou falando que o que ela queria mesmo era dinheiro, já que agora a filha dela ia morar com gente rica, ela tinha que receber alguma coisa.
Não sei qual foi o teor da conversa que rolou depois disso, só sei que a mãe biológica voltou atrás, o que retirou uns quatro mundos da minhas costas e eu consegui voltar a raciocinar direito depois, mas como o juiz já havia pedido o estudo social, ainda estamos aguardando o relatório do estudo social chegar no fórum, pra daí podermos pegar o Termo de Guarda Definitiva.