Hipertensão cada vez mais cedo
Médicos atentos ao crescimento da obesidade e sedentarismo entre os pequenos
Nove da manhã, hora do recreio na escola “X”, em Fortaleza. Os alunos disputam lugar na fila que dá acesso a cantina onde a promoção do dia é tentadora: “compre um cheesburger e ganhe um bacon grátis”. Rica em gordura saturada, colesterol e calorias (1 fatia de 15g corresponde a 99 cal), a opção vai contra tudo aquilo que se propõe ser uma refeição saudável. O pior é que a criança não precisa ir a um shopping ou comer errado na casa de um vizinho. O pecado é cometido no ambiente escolar que, a princípio, é considerado como extensão do lar.
Promover a educação alimentar e evitar que nossas crianças engrossem as estatísticas da população de diabéticos e hipertensos se tornou uma tarefa difícil nos dias de hoje. É o que afirma Adriana Forti, endocrinologista e diretora do Centro Integrado de Diabetes e Hipertensão do Ceará, que em sua prática diária atende a um número crescente de crianças obesas ou com sobrepeso, fator de risco para o desenvolvimento da hipertensão, doença silenciosa e mal responsável por cerca de 40% dos infartos e 80% dos acidentes vasculares cerebrais.
Casa e escola
“A criança deve constatar em casa que é assim que tem que ser. A escola, que é a continuação da casa, deve conscientizá-las sobre a importância de uma boa alimentação. A criança que está no processo de aprendizagem – e se não observar que na escola a preocupação é a mesma – vai achar (até porque é mais gostoso) que aquilo – o salgadinho ou o pedaço de pizza – é o melhor”, afirma a médica.
Segundo relata a Dra. Adriana Forti, as dificuldades começam quando se tenta mostrar para a criança que ela tem que seguir uma dieta, tanto em casa quanto na escola. “A gente conversa e programa a dieta que vai levar para a escola e muitas dizem: – doutora eu não vou levar não, vou morrer de vergonha”.
Opção saudável
Por outro lado, a cantina da escola oferece poucas escolhas saudáveis ( salvo algumas exceções) como uma salada de frutas, ao contrário da variedade de salgados (esfirras, coxinhas, batatas fritas), tudo condimentado e com muito sal. Há também um paradoxo, pois quando o cardápio apresenta opções com frutas – inclusive sucos -, são justamente os itens menos solicitados pela garotada.
“É importante saber que a criança está em fase de crescimento e desenvolvimento, onde o nutriente desempenha um papel super importante. Com uma alimentação errada, aumentam as chances da criança se tornar obesa, ao mesmo tempo em que desfavorece o crescimento saudável, em termos de um processo de desenvolvimento global”, esclarece Adriana Forti.
Tão danoso para a saúde quanto uma alimentação calórica – repleta de frituras e sal – é o sedentarismo, diz o nefrologista Osvaldo Kohlman, da Escola Paulista de Medicina. Segundo ele, o controle da pressão arterial é comprometido a medida que a criança passa horas paralisada em frente a televisão e ao computador.
Para modificar tais hábitos, Kohlman propõe um novo olhar para um passado não tão distante. “Nossas crianças precisam voltar a fazer exercícios domésticos (ajudar nas tarefas de casa), subir em árvores, andar de bicicleta. Se isso não for possível, entrar numa academia pode ser um bom começo”, comenta.
Mesmo na ausência de estatísticas oficiais sobre o crescimento no número de crianças e adolescentes com hipertensão, os profissionais de saúde sentem – na prática diária -que o problema exige medidas pontuais por parte da família, da escola, dos profissionais de saúde e do governo.
Em números
“As crianças hipertensas (acima de seis anos) já correspondem a cerca de 7 a 8% da população brasileira. Algo preocupante, já que no passado essa era uma doença que afetava as pessoas a partir dos 30 anos. Podemos dizer que o Brasil já vive uma realidade similar aos Estados Unidos (onde a obesidade infantil alcança níveis alarmantes) e outros países desenvolvidos”, destaca o nefrologista da Unifesp.
Abaixo dos seis anos de idade, a maior parte dos casos de hipertensão arterial corresponde a problemas congênitos, a exemplo da hipertensão pulmonar persistente.
FIQUE POR DENTRO
Aparelhos diferenciados para obesos e crianças
Medir a pressão arterial deveria ser um procedimento de rotina em toda consulta médica, de forma a abranger todas as faixas etárias. Mas a realidade é outra. Embora realizado com freqüência em indivíduos adultos, o exame ainda é pouco solicitado – e disponibilizado – para o público infantil. Supõe-se que tal “descaso” resulte do pensamento de que, a princípio, a criança é um ser isento de ter pressão elevada, dedução simplista e perigosa.
Os problemas começam a partir da dificuldade de se encontrar – nos serviços de saúde, consultórios e farmácias – o aparelho específico, de acordo com as particularidades anatômicas dos pequenos. As dimensões da bolsa inflável do manguito (bracelete que compõe o aparelho) são diferenciadas, assim como a dos adultos obesos. Para eles, o bracelete deve ter de 32 a 42 cm de circunferência; 17cm de largura e 32cm de comprimento.
DADOS
20 cm é o máximo da circunferência do braço da criança.
Aparelho de medir pressão arterial específico para a criança: 8cm (largura da bolsa inflável ou bracelete); 13cm de cumprimento.
Giovanna Sampaio
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