As crianças de hoje são mais espertas do que as das gerações anteriores? Claro que não. Mas os pais, para garantir um bom futuro aos filhos, estão se excedendo em sua educação.
Há anos o psiquiatra João Augusto Figueiró, diretor científico do instituto Zero a Seis, faz as mesmas perguntas para mães e bebês: seu filho é bonito? É inteligente? Você o acha precoce? Todas as respostas são sempre positivas – 100% das mães tem filhos bonitos, inteligentes e precoces. Mas será que essa última palavra é realmente a correta para definir o bebê? Precoce é algo ou alguém que amadurece mais cedo do que os padrões. Assim, quando se fala em uma criança precoce, aposta-se que ela tem maior capacidade de aprendizagem e desenvolvimento do que as outras. Embora a pesquisa de Figueiró não tenha base científica, imagine como o mundo seria se todas as crianças fossem precoces como pensam seus pais? Talvez estivéssemos cercados de mini gênios. Mas é claro que a realidade não é essa.
Esses bebês, afirma o psiquiatra, não são precoces. São tão normais quanto uma criança que nasceu há 40 anos. O que mudou é o cenário. De um lado, há o excesso de informação circulante, aumentando o estímulo ao aprendizado, e do outro lado, a pressão social, que pede seres humanos cada vez mais antenados e preparados. Entre tudo isso e o bebê, estão as figuras do pai e da mãe, preparando-o para se dar bem. E, entre enxergar o bebê como um ser normal ou como um pequeno Einstein, o limite é tênue. Tão tênue que gera confusão no período mais importante do desenvolvimento humano: a primeira infância que vai até os seis anos.
Descobrir o Mundo
Sem perceber, os pais exageram no didatismo, querendo ensinar, desde muito cedo, a razão das coisas para um bebê que quer fazer o óbvio: brincar, descobrir, interagir. Mas, na ânsia de atender à demanda social de preparar os filhos para serem competentes na idade adulta, muita gente não enxerga que um bebê de quase 2 anos não é super inteligente só porque tem desenvoltura com o mouse do computador. Ele apenas já sabe manusear um eletrodoméstico de uso comum da família. “A criança nasce dentro de um cenário doméstico e absorve influência dos pais” afirma a pedagoga Maria Letícia Nascimento, professora da Faculdade de Educação da USP.
“A primeira infância é um período lúdico, de descobertas. Não pode haver pressão para o sucesso nem cobrança”, afirma o neuropediatra Marcelo Masruha Rodrigues, professor da Unifesp. Para o médico, os adultos deveriam se importar mais em criar os filhos felizes, que brinquem bastante, do que investir em uma educação pesada antes dos 6 anos. Segundo ele, o conceito atual da criança que vai à escolinha e tem várias atividades extracurriculares não é tão positivo quanto se imagina – com exceção do aprendizado de línguas. “Quem aprende duas línguas antes dos 5, 6 anos vai ser fluente em ambas e não terá sotaque. Após essa idade, a fluência é a mesma, embora a criança tenha sotaque”. Mas criar um filho bilíngüe pode ter efeitos reversos, como retardo da fala, dificuldade em formar frases e troca de palavras.
Matricular o bebê na natação é super válido desde que a expectativa não seja a de ter um César Cielo em casa. “Um bebê ou uma criança muito pequenos vão nadar para se divertir, mas ainda não tem capacidade de aprender a técnica que leva ao bom desempenho”, explica Rodrigues. Se a ideia é criar um medalhista olímpico, invista nisso após os 6, 7 anos.
Antes de tudo, diversão
Brincar é altamente educativo. Por meio dessa atividade, pais e mães podem ensinar e aprender muito. Mas não devem criar expectativas. “Quando deixam as coisas acontecerem no seu tempo, os pais contem a ansiedade em relação ao que esperam que a criança aprenda”, afirma a professora de pedagogia da Unifesp Fernanda Muller. Durante a brincadeira, os pais, então relaxados, tem a oportunidade de observar o que desperta interesse dos filhos. “Nesse momento, devem aproveitar a brecha para estimular mais essa ou aquela aptidão”, diz Maria Angela Barbato Coelho, coordenadora do Núcleo do Brincar da PUC-SP. Aí cabe comprar instrumentos musicais se o menino demonstra “jeito pra coisa”.
Então, antes de planejar criar um filho exímio violinista, brinque com seu filho para despertar sua curiosidade e suas qualidades. Aproveite para ensinar conceitos como certo e errado, o lugar das coisas e como ser organizado, sem precisar ser didático e chato. “Os pais devem deixar a criança encontrar seu modo de ser e mostrar valores e regras de maneira discreta”, diz a psicóloga e professora da Universidade Federal do Paraná, Lídia Weber, “nada de dizer, ‘pegue a boneca e coloque ali’, mas perguntar ‘o que eu faço agora?’. A criança não fica passiva e entende que há formas de poder nessa relação”, ensina.
O limite educa
O maior problema é que os adultos ignoram que brincar é fundamental para a formação do ser humano. “Brincando, a criança constrói alicerces para a vida. Aprende naturalmente a se posicionar diante dos outros, garantindo a sua socialização”, diz Figueiró. Para ele, os pais tem de apoiar o desenvolvimento do ser e não apenas fazer um projeto do que eles desejam que o bebê “venha a ser”. Muitas vezes não se dão conta, mas colocam no ombro do filho um saco cheio de desejos, esperanças e frustrações. Inconscientemente, querem que as crianças sejam o que eles não foram e as moldam à sua imagem.
Os pais também se confundem, sem perceber, quando vão sendo engolidos pela pressão social, como numa conversa entre casais de amigos e um deles pergunta: “O bebê já esta na aula de inglês?” “Muitos matriculam seus filhos em cursos devido à sua própria vaidade”, diz Irene. A situação fica ainda pior quando se rendem à pressão dos filhos. Na cena típica, a criança pede o brinquedo do momento e, para não serem chamados de injustos, os pais cedem.
“Estabelecer limites é malvisto pela sociedade. Equivale à censura, e a humanidade viveu um período em que era ‘proibido proibir’. Por isso, os pais não definem limites, se afastam da função parental e querem, antes de tudo, ser amigos dos filhos”, diz João Figueiró. Nessa relação de amizade, muitas vezes esconde-se a culpa enorme que os pais sentem por não estarem tão presentes. “Pai e mãe tem que participar desde o começo da vida dos filhos. A cada mês, as crianças mudam e é preciso estar junto sempre. Nem que seja uma hora por dia”, diz a arquiteta Mariana Camargo, mãe de duas meninas e um menino.
A questão da presença é um item de peso na balança da culpa da família ausente. No modelo atual, o contato familiar é cada vez menor porque tanto o homem como a mulher trabalham e chegam tarde m casa, dispondo, em geral, de pouco tempo e ânimo para ficar com as crianças. Uma criança é muito preciosa porque é um ser único e, antes de tudo, deve ser criada para descobrir sua identidade no mundo. E o passaporte para essa viagem quem concede são os pais.
Ideias simples (e efetivas) para interagir com seus filhos
- As crianças adoram inventar coisas. Dê potes plásticos, caixas, latas e outros cacarecos para seus filhos brincarem.
- A fantasia é importante. Deixe a criança encarnar personagens, se fantasiar, e assuma você também um papel.
- Brincar ao ar livre é fundamental. Vá a parques e praças com as crianças e deixe que elas abusem da vitamina S (sujeira…)
- Não fique o tempo todo dizendo o que a criança tem que fazer. Inverta os papeis e deixe que ela comande o jogo.
- Quando estiver brincando, vá ensinando com naturalidade, explicando os porquês, sem ser muito didático.
- TV não é brinquedo, mas pode ajudar a educar, dependendo do programa. Seja criterioso quanto ao menu escolhido e assista junto. Estabeleça um horário para a criança ir para a cama à noite porque ela precisa descansar e ter essa rotina.
- Crianças mimadas, que ganham tudo, não desenvolvem o conceito de batalhar pelas coisas que desejam.
- Não existe manual que garanta a boa educação da criança. Antes de tudo, observe-a e siga a sua intuição.
Fonte: Roberto de Lucca, in: www.vidasimples.abril.com.br
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