Por que não torço para que Bolsonaro morra

Por Eduardo Cavalcanti
13 de julho de 2020

Perder para ganhar. É uma frase que gosto de usar com certa frequência. Não é um mantra que uso sem ponderação alguma, mas fruto de reflexões para manter a saúde mental equilibrada, escolher a briga certa e, sobretudo, a forma correta de lutar pelo que acredito. E tenho usado com mais recorrência nos debates políticos.


Quando Bolsonaro testou positivo para a covid-19, muitos foram para as mídias sociais fazer piadas ou torcer pela morte, incluindo um colunista da Folha de São Paulo. Das piadas, eu ri. Mas não me juntei na torcida pela morte.


Torcer pela morte do presidente é por si só ruim. Embora não seja uma pessoa que inspire amor, respeito ou qualquer bom sentimento é importante, num momento tão triste e de tantas mortes, valorizar a vida humana.


As pessoas que dizem resistir ao presidente podem acreditar que sua morte teria alguma utilidade e poderia representar mudanças profundas na condução do país. Não acredito nisso. Bolsonaro é muito pequeno se comparado a força que o colocou lá. Ademais, a força que o ainda apoia rapidamente encontraria guarida em outra personalidade raivosa. E não vamos conseguir combater isso se igualando, muito pelo contrário, a torcida pela morte de Bolsonaro faz com que ele e seus asseclas se unam para criar a imagem de alguém sensato, lutando contra um grupo que deseja o mal contra o presidente. Alguém pode fazer uma objeção “mas ele desejou coisas piores para outras pessoas, fez piada e foi insensível com os mortos pela covid-19”. Diante disso, lembro da música Inácio da Catingueira, do rapper Emicida:


Eles vão fazer de tudo para que você reaja, Se você responder a um palavrão com outro palavrão, Eles só vão ouvir o seu, Ouse responder a um soco com outro, Eles vão dizer ó lá, o neguinho perdeu a cabeça, Eu disse que ele não servia para isso, O inimigo e seus lacáio vem com tudo, joga sujo, E você não pode simplesmente reagir com a mesma baixeza.


O sentimento de justiça é válido. Mas é estratégico, para quem se coloca como uma resistência contra o ódio agir da mesma maneira?  É importante notar que esse mesmo argumento utilitário poderia ser usado para justificar a morte de supostos criminosos (sabemos quem se enquadra nesse estereótipo), ou seja, a violação de grupos adversários se justificaria ainda mais, uma vez que derrotar o inimigo é algo louvável. Eu sei, esse argumento é desproporcional, mas pode não ser para muitos.


O combate ao ódio e a violência não pode ser feito com as mesmas armas. Nosso contexto pede a defesa irrestrita das vidas. Se esse argumento não convence, que seja pela ideia utilitária de que não podemos nos igualar. O governo e seus asseclas tem a capacidade de fazer com que muitos só escutem nosso palavrão.

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