O Batismo no Círculo

Por José Eduardo Brum
13 de julho de 2020

O Universo tem um dom peculiar de interação, ainda muito desconhecido da maioria de nós, reles mortais. Ele se desdobra em maneiras inusitadas para nos invadir, caso permitamos. Afinal, somos cocriadores da própria realidade. O caminho da prosperidade e da cura, ofertado pelo Divino, requer a abertura diante das possibilidades ao redor. No entanto, muitas das vezes, reagimos fechados, apagados, relutantes.


Deixando de lado a abstração, exemplifico-a com uma parábola real, assim como o Mestre Jesus costumava fazer. Há exatos dois anos, imergi na transformação durante uma partilha singular com o Universo. Mais especificamente, recebi o batismo do círculo sagrado feminino por meio de mulheres guerreiras, marcadas e marcantes.

O palco da iniciação não podia ter sido mais peculiar. Com a condição de disfarçado, havia sido chamado a fotografar as celebrações de 30 anos do Assentamento “Olga Benário Prestes”, em Visconde do Rio Branco (MG). Como fiel devoto da literatura, aproveito para recomendar a biografia, escrita por Fernando de Morais, dessa figura diferenciada. Ideais, lutas e humanidade sacolejam uma leitura dolorosa por torcermos pelo irreal, contrário ao fatídico final.


Voltando aos festejos, os encontros sucediam-se no mesmo tempo sem fluírem caóticos. Éramos um organismo único formado pelos cantos do congado, pela comida partilhada, pelo Reik canalizado e pelo círculo sagrado feminino com mulheres que nunca tinham sequer ouvido falar dele.


Na grande roda de chão batido, amalgamavam-se filhas, mães, avós, netas, jovens, grávidas, esposas, anciãs. Crianças pululavam soltas como átomos. E eu figurava, me achando invisível, como um mero jornalista espectador. Enquanto circundava a captar os bate-papos, as partilhas e as bênçãos, reconhecia o ímpeto ardente de participar, unir e conectar.

Até que o Universo agiu. Ele está a todo instante promovendo choques, explosões. Perante a mulherada, me presenteou com a chance de ressurgir. Elas, sempre elas, captando o impulso de integração entre os dois princípios, feminino e masculino, jogaram as redes em mim. Fizeram o convite. Aceitaram-me como consorte. Assim, fiquei ligado à Deusa. Dancei.

Diante da rememoração atual, naqueles segundos de hesitação, podia ter fugido. Afinal, não convinha que descobrissem de onde vinha, qual era minha profissão. Na ponta da língua, alegaria a tarefa das fotos. Elevaria a câmera aos olhos e ficaria novamente cego à ação do Universo.

Ao contrário, desapeguei do medo, da vergonha e da máquina para adentrar pela primeira vez no círculo sagrado. Literalmente me entreguei naquele batismo junto à Mãe Terra, às divindades. Desde então, agradeço a revolução que descortinou o quanto estou nutrido do feminino. É ele que me ajuda a fortalecer, a buscar, a crescer, a curar o masculino. E que vai permear os encontros nossos nesse espaço “Sagrado de um Homem”.
 

Dicionário Holístico
 
O sagrado feminino é uma filosofia ou um modo diferente de se ver por meio de uma conexão com antigos saberes, além de promover a espiritualidade e o autoconhecimento. Traduz-se numa sabedoria interna a fim de despertar a feminilidade.
 
A ligação com a Deusa, independentemente de qual panteão, assegura uma emanação divina da Criação capaz de orientar, despertar e amparar nas diversas questões vivenciadas em âmbito interno ou externo.

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