Mulheres negras resistem a caminho da liberdade

Por Ana Beatriz Rocha
24 de julho de 2020
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, os diálogos trazem os passos da resistência e a luta pela ocupação dos espaços

Encontrar épocas onde havia liberdade plena é tarefa quase impossível. Do surgimento até os dias atuais, o tempo do mundo se diluiu na construção de marcadores que podem ser chamados de caminhos. Muitos se cruzam e produzem vivências complexas quando o resultado é coletivo demais, e o pessoal se torna político. Em alguns desses atravessamentos estão as mulheres negras, na lógica opressora vigente, a dinâmica de entrelaçar gênero e raça resulta em violências que respingam em muitos pontos de uma vida.

Para incentivar esse debate, o dia 25 de julho é marcado como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. No Brasil, é também o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder quilombola que seguiu os passos coletivos da luta por liberdade. É uma data para valorizar a importância do grupo, bem como fortalecer o combate às opressões. Conhecer a história ao longo dos séculos é se deparar com a dor e retirada de direitos das populações negras ao redor do mundo, desde que foram arrancadas do continente africano.

Pelo sistema econômico baseado no escravismo, o corpo negro foi banhado como escória nas águas do Oceano Atlântico, e a teoria racista que daria respaldo a um genocídio sem data limite se estruturou. As mulheres negras escravizadas se viam desnudas de qualquer liberdade. Lhe roubaram os dias com trabalhos forçados exaustivos, os filhos para que cuidassem das crias da Sinhá, e seus corpos que, reduzidos a carne, eram violados até o último instante pelos que se achavam donos. A miscigenação brasileira tão comemorada é o fruto das violências sexuais seculares.

No Brasil, em 2 de junho de 2014, foi instituído por meio da Lei nº 12.987, o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. (Foto: Rennan Peixe)

A pós-modernidade mudou quase tudo, menos as representações históricas que mantêm as mulheres como humanos de pouco valor, e mulheres negras como não humanos. O corpo da mulher negra é, ainda hoje, objetificado em sexualização e subalternidade pelas imagens de controle. Na análise da Historiadora e Professora da UFPB Solange Rocha, essas imagens são frutos do estigma da escravidão “a mentalidade brasileira de valores escravistas é muito presente, a mídia tem papel importante na difusão dessas representações, muitos conteúdos continuam reproduzindo os estereótipos e as visões retrógradas que não consideram a diversidade dos sujeitos sociais”, afirma.

Foram criados mitos acerca de uma insaciedade sexual, da inadequação para relacionamentos estáveis e da sensualidade exacerbada que representa tudo que há de pecaminoso no Brasil. Esses estereótipos racistas foram vendidos por anos na figura de globelezas e “mulatas tipo exportação”, seja em publicidades ou nas novelas. Nesse contexto, os dados do Brasil em sua falácia democrática expõem um país que se recusa a abandonar as heranças escravocratas.

Mais de 70% das vítimas de violência sexual em 2017 foram mulheres negras, no caso de mulheres brancas, o número cai para 12,8%, segundo registros da Rede de Observatórios de Segurança. O alerta se estende a outras violências, os índices do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que 61% das mulheres vítimas de feminicídio entre 2017 e 2018 eram negras. Além disso, muitas têm que enfrentar a dor de perder filhos e companheiros para brutalidade policial. Fases do projeto genocida onde o simbolismo da morte antecipa sua literalidade.

Além de violações corporais, o racismo as reduziu a trabalhadoras braçais, na negação de uma intelectualidade capaz de ocupar cargos que não sejam de servidão. O grupo permanece sendo maioria entre os que estão em trabalhos precários ou penam no desemprego. Como reflexo, segundo o IBGE, uma mulher negra ganha, em média, 44% do salário de um homem branco. Menos da metade de um todo que decide quem detém privilégios e quem fica com as sobras.

Quando conseguem ascender socialmente, é comum que o estigma continue as perseguindo “o lugar onde eu cheguei é uma exceção, e é resultado de uma luta coletiva, mas quando olham pra mim nunca imaginam que sou uma pós-doutora, sempre acham que estou ali para servir” relata a Professora Solange Rocha. O contexto revela o que deveria ser óbvio, mas não é. Não há heterogeneidade na categoria mulheres. Ser mulher já seria desafiador o suficiente no sistema que conhecemos, mas o recorte de raça tem sido determinante nas experiências das mulheres negras pelas Américas. Recortes de uma jornada onde viver é sinônimo de resistir.

“NOSSOS PASSOS VÊM DE LONGE”

Jurema Werneck, médica e escritora nascida nos morros cariocas, cunhou a frase que se tornaria um dos lemas da luta das mulheres negras no Brasil. O longe remete a tempo e lugar, remete a força de uma comunidade que resiste há séculos para não padecer. Resistência, termo que de tão utilizado muitos temem que se esvazie. Mas ele vem aqui como grito, e conta sobre a caminhada que essas mulheres, embora cansadas, não param de trilhar.

São passos difíceis, pois o racismo no ato de desumanização não permite que elas sejam reconhecidas como sujeito de direitos, e construiu o estigma de força em volta delas para justificar uma pseudo capacidade de aguentar tudo. Elas não aguentam. Ao se entristecer percebem uma dificuldade em lidar com as próprias emoções, pois não foram orientadas para tal. O choro de não saber chorar, a metalinguagem do desalento.

Há muitas formas de não sucumbir aos mecanismos da opressão. Os obstáculos, inerentes a condição, não dependem dessas mulheres. No entanto, há um processo reiterado por intelectuais negras como primordial para sobrevivência, a autodefinição. Perceber as imagens de controle como fantasias preconceituosas para forjar uma inferioridade inexistente. Ao longo do tempo, mulheres negras se negaram a aceitá-las e construíram suas próprias imagens de si, e isso não foi feito apenas na academia.

No lugar social que ocupam, o sistema tenta usurpar o senso cultural, acadêmico e lírico, até que sobre apenas a carne, que no mercado será a mais barata e sempre exposta. Sem acesso às universidades, e sem tempo para ingressar em movimentos sociais, muitas resistiram através de gerações de modo simbólico, salvando sua prole.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 60% das trabalhadoras domésticas do Brasil são mulheres negras. (Foto: Divulgação)

Bem mais da metade das trabalhadoras domésticas do Brasil são negras. As elites e as camadas médias do país continuam recrutando pessoas para cuidar dos seus lares, criar seus filhos e organizar a parte da vida que consideram braçal demais para se submeterem. A permanência da negritude na cozinha dessas casas reflete mais o chão histórico do que muitos livros didáticos. Mulheres que passam mais tempo nos lares alheios que em seu próprio teto e, por vezes, toleram abusos constantes.

Apesar disso, as análises de cientistas sociais apontam para um dos aspectos da autodefinição citada. Diversas trabalhadoras sacrificam suas vidas em prol do futuro dos seus filhos e filhas, que através da educação financiada pela luta materna, ocuparão espaços que não mais os do quartinho de empregada. A resistência dessas mulheres se abriga na não aceitação das limitações que tentam lhe impor, negando cada imagem de controle e ensinando os seus a não se sujeitarem. Trabalhadoras domésticas que são ativistas orgânicas da sua própria causa.

A ARTE ENTRE A DOR E A CURA

As rodas de samba sempre foram um lugar de resistência para o povo negro. Talvez represente no Brasil o que o blues causou na comunidade negra estadunidense, um frenesí identitário que ecoava as dores e a coragem de uma gente esquecida pelos movimentos musicais de destaque da época. Entre as sambistas negras, junto com o repique vinha o cantar de vivências ignoradas pela sociedade, elas davam ritmo aos abusos e a sofrida solidão, mas também à luta constante para sambar a liberdade e deixar a dor passar.

Silvana também é fotógrafa e as redes sociais têm sido uma forte aliada na divulgação do seu trabalho, ela espalha para o mundo registros da composição das suas obras. (Foto:Arquivo pessoal)

Palcos que amplificaram a consciência coletiva das mulheres negras, e permitiu que, pela primeira vez, muitas vissem que os entraves pessoais eram aspectos políticos. Dar vazão à essa voz salvou a vida de muitas, e fez outras tantas alcançarem lugares dificilmente imagináveis para uma mulher preta. Mas a dor não passou, e nem poderia, pois as violências estruturais permanecem fazendo vítimas. Essa ferida aberta faz com que continuem usando a arte como ferramenta de emancipação de si e das suas.

Outras expressões artísticas também são utilizadas para exprimir a grandeza do povo negro, espalhando nas cidades sorrisos em rostos que costumam ser expostos na mídia sempre aos prantos. Artista visual de profissão e alma, a maranhense Silvana Mendes sente na pele as dificuldades de ser uma mulher negra, e através das técnicas de lambe e colagem faz sua revolução em cores pelos muros que a entregam.

O ineditismo das obras nasce das necessidades internas de Silvana. Nos últimos anos, os ruídos urbanos foram rompidos pela beleza e potência dos corpos negros, ofício assumido como projeto contínuo de vida. Para ela, resistência artística tem a ver com protagonismo, “percebi esse significado do movimento artístico a partir do momento que meu trabalho me deu voz e autonomia, a arte tem a força de fazer a gente acreditar na possibilidade de cura através dela”, relata. O seu trabalho atua na busca da transformação para si e para as que lutam com ela “a resposta do público me faz sentir como uma ponte, um instrumento de transformação através arte”.

 

POTÊNCIA NEGRA EM MOVIMENTO

Em inúmeras de suas falas a filósofa e ativista estadunidense Angela Davis afirma “quando uma mulher negra se movimenta, toda sociedade se move junto com ela”. Elas carregam em si vários desprivilégios sociais, representando, assim, a luta de diversas outras parcelas minorizadas. Equação simples, só quando as mulheres negras tiverem seus direitos garantidos, com sua dignidade preservada e a ascensão socioeconômica possibilitada pelo sistema, poderemos nos considerar filhos de uma democracia plena.

Apesar da tristeza das relações desiguais, as famílias chefiadas por essas mulheres são exemplos de capacidade de organização, a prova disso é o estímulo permanente ao desenvolvimento da intelectualidade. Condições negativas de sobrevivência não têm sido suficientes para minar essas forças. Nos últimos anos, a internet proporcionou o crescimento de diversos debates sobre racismo e os modos de resistência do segmento negro ao longo da história.

A valorização da produção acadêmica e literária de intelectuais negras pelas Américas tem crescido bastante. Após as últimas manifestações do movimento Black Lives Matter ao redor do mundo, em combate a brutalidade policial, a venda de livros como o “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro, na primeira semana de junho teve um aumento de 184% em relação à semana anterior, segundo pesquisa da Nielsen.

O assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, gerou protestos e reacendeu o debate sobre racismo e política no Brasil. (Foto: Reprodução/Avoador)

Nomes célebres como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves e Sueli Carneiro também tiveram obras despontando nas vendas. Os números contam sobre trabalhos de uma vida inteira de mulheres que resistiram através da escrita sendo enaltecidos. Mulheres comuns e independentes, que dedicaram sua intelectualidade a busca por justiça social e pelo bem viver. São presenças marcantes no que tange determinação e criatividade, capazes de inventar vidas que seguem escapando da asfixia do projeto genocida.

Quando uma de nós tem a vida interrompida, como fizeram com Marielle Franco, todas sentem na pele o que é ser alvo. Mas se ao subir puxarmos umas às outras, o movimento de efervescência que está por vir é algo jamais visto antes. Não conheciam, em grande escala, a potência de mulheres negras dispostas a romper a engrenagem opressora que está posta. As tecnologias vigentes nos possibilitaram conhecer umas às outras, nos conectaram para além de telas, ligaram-nos em comunidade e jamais nos soltaremos novamente. Estamos prontas, e não iremos desistir até que sejamos todas livres para chegar onde quiser.

Há mulheres negras fazendo ciência, produzindo inovação tecnológica, revolucionando a arte, marcando pontos exponenciais no esporte. Presentes, cada vez mais, na comunicação com uma sensibilidade única na construção de narrativas. Com muita luta entraram nas universidades e preenchem sua intelectualidade de vivências reais e palpáveis. Ocupando todos os lugares, inspiradas em passos que vêm de longe e as mantém firmes na busca (ativa) do cantar da liberdade.

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