A Eterna Jornada pela Liberdade

Por José Eduardo Brum
23 de julho de 2020

Dedicado às mulheres que representam o arquétipo das deusas, sendo que muitas sequer se dão conta da presença do princípio feminino que exalam.

Aos apaixonados por ficção e fantasia, narro uma epopeia animal dos dias de hoje, cheia de ensinamentos e reflexões como deve ser. Confiai que a moral espiritual da fábula virá. Oh, preciosas Musas! Que eu faça jus a Homero no humilde relato abaixo, um misto de “Ilíada” pela necessidade boba de subjugar e de “Odisseia” pela certeza do retorno ao doce lar.

Era uma vez Lizzie (em homenagem à Elizabeth Moss, protagonista de “The Handmaid’s Tale”), uma Gisele Bundchen canina, quer dizer, uma verdadeira olimpiana. Embora vira-lata, seduzia com porte evidente de pitbull, pelo todo branco e intensos olhos verdes. Confirmando a origem mítica, irrompeu em 2018, onde trabalho, da mesma forma que as divindades gregas: de repente pronta, madura, cheia de caprichos.

Arredia, não permitia toques. Assustada, sobressaltava-se com atitudes bruscas. Muda, não latia. Por trás do semblante de má, exalava medo de homem, especificamente os adultos machos da espécie humana. Pra mim, Lizzie sofreu nas patas o mesmo que muitas que andam sob dois pés padecem, mas escondem de si mesmas. Se na carcaça honrava Afrodite, na essência seguia Atena ou Ártemis. Parceira nas rondas da madrugada, mantinha-se na posição de sentido, em guarda, à noite toda em alerta.

Deveras bela, não tardou a chamar atenção. Atraída pelo canto de uma veterinária, fora levada pra ser castrada. Assim, dera os primeiros sinais de jamais de novo aceitar confinamentos, muito menos a dominação. Revoltada, escapou. Raptada uma segunda vez, seu destino sofreu o revés temido depois de concluída a operação. Adotada, ganhou casa tradicional. Não era o que queria.

Até que dois anos passados (um período mais longo no universo canino, creio eu), eis que ela ressurgiu resplandecente na entrada do serviço como se magicamente materializada. O antigo dono, por diversas vezes, tentou em vão buscá-la. Cínica, a cachorra ascendia ao morro e do alto, o observava em audácia galanteadora de uma deusa intocável.

Enquanto a esperança de recuperá-la se esvaía, o algoz fez uma fantástica descrição. Presa, a cadela nunca interagiu com a família. Obcecada, canalizou a raiva e destruiu rodapés. Descarada, arrancava roupas do varal e espalhava rancores. Tinhosa, não dava bola nem para o adestrador que, a fim de acobertar o próprio fracasso, considerou-a depressiva.

Isso, ela não era. Posso dar testemunho. Bastou recuperar a liberdade pra resplandecer. Por isso, batizei-a na nova fase de Lenu, apelido pra Elena (uma homenagem não intencional à Guerra de Troia, garanto-vos), considerada “A Amiga Genial” da série italiana. Como a palavra tem poder, a transmutação nominal reverberou. Em poucas semanas, já aceitava carinhos, brincadeiras e envolvimentos de vários colegas.

Mais brilhante e dócil, tornou-se outra vez alvo de desejos. Um casal, claramente no ego, queria prendê-la por mero capricho. Por que diabos o bicho homem busca intensamente possuir e trancafiar pra si, no lugar de vislumbrar e deixar a vida natural e singular solta? A materialidade impera em sujeitos vazios.

Dessa vez, o narrador que vos fala interferiu como personagem. Entrou na história em prol da liberdade mesmo que tardia, conquistada após vários encarceramentos. Pode parecer que anda jogada, largada às intempéries. Todavia, a cadela flui junto a Hécate pelas encruzilhadas. Segue instintos e desejos em diversas direções, ao contrário de se submeter ao padrão, tão imposto e castrador. É de rua, de relento, de todo mundo e ao mesmo tempo de ninguém.

Pensando nessa revolução, Lenu se tornara, no jeito canino de ser, mais uma integrante do séquito das “Mulheres que Correm com os Lobos”. Homens e mulheres, vos faço um adendo, rogando para que contemplai as fábulas, as análises psicológicas e os livramentos da bíblia do sagrado feminino, escrita por Clarissa Pinkola Éstes.

Em cada narrativa, a ficção descortina arquétipos e padrões de senhoras e senhoritas machucadas, vilipendiadas, trancafiadas, maltratadas, consumidas, dizimadas, ultrajadas e praticamente depredadas. Apesar de incontáveis lesões e atrocidades, em todas as histórias, perpassa o otimismo ao final. A mulher, mesmo destruída, pode sempre vicejar, recomeçar, florescer. Se Lenu provou ser possível, imaginemos nós, seres tidos como racionais, determinados e capazes. Em suma, não existem limites irremediáveis. Sejamos lobos e lobas livres em nós mesmos.

Dicionário “Quase” Holístico

– Olimpianos é um termo cunhado por Edgar Morin em referência às grandes estrelas e às figuras da mídia da indústria cultural. No modo de ser e viver, acabam imitados, invejados e reverenciados, literalmente tratados como divindades.

– No Oráculo da Deusa, Hécate, tida como uma deusa escura do submundo, nos acompanha nas encruzilhadas da vida, ou seja, nos momentos difíceis de escolhas. Nos ensina a confiar e a relaxar pela certeza de que saberemos decidir bem, quando do momento oportuno. Em imagens, está sempre acompanhada de um cachorro, assim como estou durante o serviço com Lenu.

– Pra deixar uma palhinha, “Mulheres Que Correm com os Lobos” oferta uma preciosa lista de “Normas Gerais para a Vida dos Lobos”:

1 – Coma

2 – Descanse

3 – Perambule nos intervalos

4 – Seja leal

5 – Ame os filhos

6 – Queixe-se ao luar

7 – Apure os ouvidos

8 – Cuide dos ossos

9 – Faça amor

10 – Uive sempre

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