REVOLUÇÃO GAEL: desconstruindo pré-conceitos sobre o parto

Por Carlos Alberto Ferreira
20 de agosto de 2020

O parto do nosso filho Gael é uma história de desconstrução da ideia inicial de que uma cesariana seria o método mais indicado, seguro e “confortável” para uma mulher em primeira gestação, na faixa de 40 anos de idade. Contudo, mesmo depois de meses de estudo sobre o processo que vivíamos, não pense que esse capítulo terminou exatamente do jeito que idealizamos. O que você vai ler adiante, parafraseando o título do livro de Manuela D`ávila, é parte da Revolução Gael, uma reconstrução dentro da desconstrução que nos propusemos viver.

A descoberta da gravidez se deu em 18/10/2019 num daqueles exames feitos mais para “tirar isso da cabeça” (risos). Mal sabíamos que a jornada já havia começado há quase um mês e, naquela sexta-feira, um exame de farmácia e o posterior teste de laboratório, feito à jato, tamanho o susto, nos avisava que já estávamos em processo de upgrade do “éramos dois” para em breve “seremos três”.

A mudança mais linda de percepção das nossas vidas começou a ganhar corpo na primeira consulta com aquela que seria, de fato, nossa obstetra. Ali, minha esposa, Dilaine Sampaio, professora universitária, ainda flertava com a vontade de que o parto fosse feito via cesariana. Naquele momento, a médica, conhecida defensora do parto humanizado, nada disse. A não resposta, posteriormente, me pareceu o “click perfeito” dos profissionais mais experientes para permitir que a mudança ocorresse naturalmente ao longo do processo e não por um posicionamento clínico impositivo. As leituras posteriores nos revelaram uma série de mitos e pseudo argumentos usados pelos próprios médicos para defender a cesariana. Fundamentos esses que esbarram muito mais no comodismo da cirurgia com hora marcada em substituição à dedicação de assistência ao parto, que pode durar horas ou até dias, como você verá adiante.

A grande mudança ocorreu na segunda ou terceira consulta quando, além das leituras de livros que abordam o tema, já tínhamos assistido o documentário “O Renascimento do Parto”. Sim! Ele foi decisivo! Os relatos das mães que passaram por procedimentos obstétricos violentos, traumas difíceis de apagar da memória, somados às explicações sobre os benefícios do processo de parto natural para a mãe e o bebê sedimentaram a nossa troca de opção. Gael escolheria a hora de nascer e viria ao mundo por vias naturais.

Os primeiros sinais mais evidentes de que Gael já manifestava o desejo de nascimento começaram na noite de 18 de junho de 2020, por volta de 21h30. As contrações de treinamento já eram presentes, mas havia ali um componente novo, a dor. Avisamos a doula, que falou com a obstetra, e o time do “Vem bebê!” já estava acionado. Em função das leituras, já havia baixado o aplicativo que ajuda na medição das contrações que, em princípio, eram espaçadas e de curta duração. Assim passamos toda a madrugada. As dores aumentavam de intensidade, mas as contrações não ritmavam, o que aprendemos que ainda não eram um indicativo de evolução dentro das fases do parto.

Às 5h30 da manhã, a doula decidiu que era hora dela iniciar a nossa assistência presencial, uma vez que durante toda a madrugada ficamos em contato via Whatsapp. Por volta de 9h recebemos a visita da obstetra. Um alento e tanto em tempos de Covid-19.! As próximas quatro horas foram de monitoramento dos batimentos cardíacos do bebê, exame de toque, exercícios para auxiliar o processo de evolução do parto e muita, mas muita calma e paciência na assistência feita por aquele que eu considero o “Dream Team” do parto naturalizado. A dra. Kezia Navarro e a doula Renata Ferreira formam um time de um silencioso e profundo entrosamento.

 

 

É aqui que entram os meus recados para os pais! Participe! Preste atenção! Talvez você não viva uma experiência tão realizadora, a não ser que tenha outros filhos. No caso dos marinheiros de primeira viagem como eu, não se sinta envergonhado de não entender. Não há pergunta descabida naquilo que é desconhecido. Portanto, quanto mais informações você tiver, mais linda será a sua introdução nesse mar “nunca dantes navegado”, parafraseando Camões. Sim, o parto é um mergulho no desconhecido!

Obstetra e doula não falam muito. Elas se entendem apenas no olhar, na troca silenciosa de “faça isso”, “vai dar”, “não vai dar”, “subimos um degrau”, “ainda não é hora”. E você, pai? Se antecipe! Ofereça! Você vai aprender a fazer a melhor massagem do mundo instintivamente! Teus sensores vão detectar a hora de oferecer um café, um copo d`água ou um abraço. A doação do SIMPLES é o melhor jeito de se mostrar presente e reforçar os laços de parceria.

 

 

Por volta de 13h, a evolução no processo de parto ainda não significava um “estamos mais perto da hora H”. Havia uma incrível resistência à dor por parte de Dilaine. E muita, mas muita entrega! Em mim, se iniciava uma silenciosa transformação. A confiança de que se o parto do meu filho acontecesse ali mesmo, na sala ou no quarto da nossa casa, estaria tudo bem! Logo eu que sentia calafrios durante toda a gestação quando alguém tocava nesse assunto. Exatamente eu! A minha participação ativa no parto, além de me integrar ao processo, promoveu um aumento de confiança que me levou a esse estado: “vai nascer aqui? Tudo bem!”.

Não. Não foi assim. Contrações persistentemente não ritmadas mudaram o panorama dentro de um novo intervalo de quatro horas. O uso da ocitocina, hormônio que tem como função promover as contrações musculares uterinas, passou a ser uma opção para dar um passo adiante num trabalho que já durava 20h. Por volta de 17h, já estávamos prontos para ir para o hospital. É claro que os sete centímetros de dilatação nos colocavam num estágio evolutivo, porém, ainda faltavam contrações mais longas e próximas.

O cansaço de Dilaine já era visível, mas a vontade de parir naturalmente era infinitamente maior. Objetivo traçado e perseguido heroicamente. Já no hospital, à base de medicamentos, ela pôde desfrutar de uma hora de descanso. Havia duas opções: a administração da ocitocina ou o rompimento da bolsa com objetivo de fazer com que as contrações ritmassem, contudo, uma informação sobre o procedimento, acendeu um sinal de alerta crucial. Se a ocitocina não desse certo, o estouro da bolsa só poderia ser feito quatro horas após o primeiro procedimento.

 

 

O trevo em que nos encontrávamos permitia alguns caminhos: persistir na busca pelo parto natural com uso da ocitocina, que se não desse certo precisaria de um intervalo de mais quatro horas para o procedimento de rompimento da bolsa, que poderia ou não resultar no objetivo proposto. Certo é que todos os caminhos poderiam nos levar a uma cesariana. Com mais quatro a oito horas de trabalho de parto, quais seriam as condições físicas de Dilaine para receber nosso primeiro filho? Mais que o cansaço físico, a estafa emocional, após 36h acordada e mais de 24 horas de trabalho de parto que abraçados, como na foto, decidimos por uma cesárea intraparto para que ela pudesse receber nosso primeiro filho com mais qualidade. DECISÃO NOSSA! Meu apoio, incondicional ao que ela quisesse!

Dilaine e nosso filho já tinham recebido todos os benefícios do parto normal. A opção pela cesárea intraparto era sim uma evolução de um processo desconstrutivo que nos permitimos até aquele momento. E quem disse que uma cesariana não pode ser conduzida de forma humanizada? PODE SIM! Música, pai ao lado da mãe durante todo o processo, parturiente não amarrada (acredite, ainda pode ser parte do procedimento amarrar a mãe durante a cirurgia), gestante consciente e informada de todos os acontecimentos, luzes baixas, ar condicionado mais próximo da temperatura ambiente, afinal nosso filho passou os últimos nove meses num lugar quentinho, pouca luz, aconchegante, por quê um choque tão grande logo ao nascer? Além disso Gael teve sua hora de ouro, passou uma hora no contato pele a pele e já pôde mamar e eu tive a linda experiência de cortar o cordão umbilical! Foi assim, às 23h30 de uma sexta-feira, depois 26h de trabalho de parto, 38 horas acordados, que o amor virou só mais amor!

 

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