Direitos iguais para quem?

Por Hianne Morais
10 de agosto de 2020

Vivemos todos no mesmo planeta, sob o mesmo céu, certo? Sei que parece uma pergunta óbvia quando temos a certeza de que a interseção entre as nossas diversidades é bastante clara: somos humanos. Teoricamente, nossa natureza deveria transpassar classe social, raça ou gênero. Afinal, somos feitos da mesma matéria e todos os corpos estão fadados ao mesmo destino – nascer, existir e morrer. 

Acredito que assim também pensaram os revolucionários na França, quando lutaram proferindo a mensagem de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Esse grito nos deixou de herança a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a primeira proclamação de direitos fundamentais, que se dizia libertária e humanitária. Confesso que, escrevendo isso, esboço uma risada irônica. Isso porque esses mesmos homens que iam às ruas em um ato de coragem pela liberdade universal exigiam o silêncio de mulheres que pediam pelos mesmos direitos. Os soldados, que vangloriavam a nobreza da luta francesa, eram também os que rotulavam de tragédia a Revolução Haitiana, que ocorria sob os mesmos preceitos e reivindicava a mesma pauta. Porém ali, os gritos vinham de corpos negros, escravizados pelo país que prometia a luz da liberdade para todos. Em meio a tantos paradoxos, acredito que o maior eco destas revoluções tenha sido a seguinte pergunta: “É possível alguém ser mais humano que o outro?”

Yasmim Formiga, mulher artista e ativista pelos direitos das mulheres na Paraíba. Foto: Roan Nascimento

Yasmim Formiga, mulher artista e ativista pelos direitos das mulheres na Paraíba. Foto: Roan Nascimento

  A repercussão dessas grandes revoluções e suas contradições geram debates importantes até hoje, mesmo que mais de 230 anos tenham se passado. Inegavelmente, os direitos dos negros e das mulheres avançaram. A declaração dos direitos fundamentais deixou de ser do Homem, e deu lugar à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Contudo, estarei mentindo se disser que ao abrir meus olhos atentamente, consigo enxergar essa igualdade que parece tão bonita no papel. Me assusta pensar que, dois séculos depois, estejamos vivendo as mesmas lutas, com personagens distintos. O medo se torna ainda maior quando tento entender se ainda é possível que exista um ranking em que a raça, a classe social, o gênero e a orientação sexual forneçam pontuações na tentativa de provar quem é mais humano que quem. Por fim, ao perceber as mortes silenciosas e diárias de mulheres, negros e LGBTQ+, me questiono quantos de nós seguimos sendo calados e oprimidos pelos mesmos soldados que lutam nobremente sob o lema #VidasHumanasImportam.

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