As Quatro Nobres Verdades – A Verdade da Causa do Sofrimento

A origem do sofrimento é o desejo sensual, o desejo de existência, o desejo de não-existência, o desejo de auto-aniquilação. A união dos cinco agregados faz surgir a ilusão de um ego. Nunca conseguimos satisfazer os inúmeros desejos desse ego impermanente, sem essência, sofredor. Dessa ilusão inicial, ou avidya, surgem os três venenos (sânsc. klesha): o desejo (apego), o ódio ou raiva (aversão) e a ignorância (desconhecimento). Do mesmo modo, surgem todos os outros venenos mentais, como o orgulho, a inveja etc.

Para compreender como o sofrimento aparece, pratique observar a sua mente. Comece simplesmente deixando-a relaxar. Sem pensar no passado nem no futuro, sem sentir esperança nem medo em relação a isto ou aquilo, deixe que ela repouse confortavelmente, aberta e natural.

Nesse espaço da mente não há problemas, não há sofrimento. Então, alguma coisa prende a sua atenção — uma imagem, um som, um cheiro. Sua mente se subdivide em interno e externo, “eu” e “outro”, sujeito e objeto. Com a simples percepção do objeto, não há ainda nenhum problema.

Porém, quando você se foca nele, nota que é grande ou pequeno, branco ou preto, quadrado ou redondo. Então, você faz um julgamento — por exemplo, se o objeto é bonito ou feio. Tendo feito esse julgamento, você reage a ele: decide se gosta ou não do objeto.

É aí que o problema começa, pois “Eu gosto disto” conduz a “Eu quero isto”. Igualmente, “Eu não gosto disto” conduz a “Eu não quero isto”. Se gostarmos de alguma coisa, se a queremos e não podemos tê-la, nós sofremos. Se a queremos, a obtemos e depois a perdemos, nós sofremos.

Se não a queremos, mas não conseguimos mantê-la afastada, novamente sofremos. Nosso sofrimento parece ocorrer por causa do objeto do nosso desejo ou aversão, mas realmente não é bem assim — ele ocorre porque a mente se biparte na dualidade, sujeito-objeto, e fica dividida com querer ou não querer alguma coisa.

Qual é o problema com o desejo — o que há de errado com ele? Na verdade, nada. Não há nada de errado em aproveitar experiências agradáveis. Dadas as dificuldades que temos na vida, elas são boas de se ter. Porém elas nos enganam. Elas são ardilosas no sentido em que nos fazem adotar a mentalidade do “se ao menos”: “Se ao me nos eu pudesse ter isso” ou “Se ao menos eu tivesse o emprego certo” ou “Se ao menos eu pudesse achar um parceiro certo” ou “Se eu ao menos tivesse as roupas certas” ou ainda “Se eu ao menos tivesse a personalidade certa, então eu seria feliz”. Somos ensinados que, se pudermos ter experiências prazerosas suficientes, grudando-as todas em rápida sucessão, nossa vida será feliz. Uma boa partida de tênis, seguida de um bom jantar, um bom filme, depois sexo maravilhoso e um bom sono, uma boa corrida matutina, uma hora de meditação legal, um excelente desjejum e daí para uma boa manhã de trabalho e por aí afora.

Nossa sociedade é mestre em perpetuar o ardil: “Compre isso, pareça com aquilo, coma isso, aja tal como, possua aquele outro… e você também poderá ser feliz”. Não há problema em aproveitar experiências prazerosas, e praticar não significa evitá-las. Porém elas não satisfazem verdadeiramente o coração, não é? Por um momento experimentamos um pensamento prazeroso ou gosto ou sensação e aí ele some, e com ele a sensação de felicidade que ele trouxe. Daí se espera a próxima coisa. O processo todo pode tornar-se muito cansativo e vazio.

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