A ruindade

Esta é uma crônica publicada originalmente no Jornal da Associação Médica do Paraná, Ano XXII, número 190, 2006, e seu autor é Sebastião Vicente de Castro.

Em dezembro de 1938 formavam-se 108 médicos pela Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná, só federalizada em 1951. Dentre eles estava o filho do Reitor da época. Moço dotado de qualidades exemplares: simpático, educado, inteligente, atencioso.

Na festa da colação de grau, dois colegas se desentenderam e se prepararam para uma luta corporal. Para apaziguar os contendores, tentando separá-los, o colega em apreço se interpôs aos dois. Um, armado de faca ou punhal se atirou contra o outro, no momento que o filho do Reitor o defendia. A facada foi no nariz da coxa deste ultimo. Seccionada a artéria femoral. Hemorragia violenta e socorro urgente.

Atendido às pressas, foi estancado o sangramento. A artéria femoral é de grosso calibre e a principal respnsável pela irrigação sanguínea do membro inferior. Pelo prestígio da família foram envidados todos os esforços para a recuperação. Mobilizados os melhores médicos curitibanos. Apesar de tudo, não houve outra solução senão amputar a perna.

História semelhante aconteceu em Araucária, cidade vizinha de Curitiba. Há quase 60 anos, eu era chamado frequentemente para operar no hospital daquela localidade. Um telefonema em certa manhã solicitava o meu comparecimento.

Um sujeito muito mal quisto, tido como verdadeiro bandido, batia em todo mundo e havia brigado com um rapazinho. Este, para se defender, abriu um canivete e o estocou em seu baixo ventre. Atingiu a raiz da coxa e profundamente a artéria femoral. Como morava no interior do município, não foi socorrido de imediato. Sangramento abundande até a vítima entrar em anemia absoluta, pois só foi atendido na manhã seguinte.

Quando a pressão arterial caia a zero a hemorragia parava. Desde que se elevava um pouco, voltava a sangrar. O sangue já não era vermelho, mas um líquido rosa claro. Naquele tempo não havia banco de sangue. Abri a ferida e fiz a ligadura da artéria.

Pela experiência passada, era esperar a gangrena para amputar. Feita de imediato, ele morreria. Estava em estado de choque hemorrágico e extremamente exangue.

Minha recomendação foi de que ficasse em repouso absoluto no leito. Não aquecesse o membro inferior com a bolsa de água quente ou de outra forma, porque isso exigiria maior afluxo de sangue. Somente o envolvesse com mais cobertores.

Voltei para Curitiba na expectativa de um chamado para ir amputar a perna, o que não aconteceu. Como se tratava de um malfeitor condenado pela sociedade, a população se reunia em grupos para rezar pela sua morte. Eram novenas, ladainhas, terços, pedidos a Deus para que ele morresse.

Depois de muitos dias fui chamado para atender outro doente.Perguntado sobre o que havia acontecido com aquele, fui informado: Está ótimo, andando a cavalo.

Cumpriu-se assim o ditado popular que diz: “Vaso ruim não quebra“.

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About Alessandro

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